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quarta-feira, 26 de julho de 2017

Seriado Gypsy - como não agir enquanto psicóloga(o)

Gypsy (como se nomeiam popularmente os ciganos em inglês) estreou na Netflix no último dia 30. O título brinca com a característica nômade cigana e com a terminação “psy”, diminutivo em inglês para tudo que se refira a psicologia. A série tem como protagonista Jean Holloway (Naomi Watts), uma bem-sucedida psicóloga de Manhattan.


O seriado não é ruim, pelo contrário é intrigante.  Ao longo dos episódios vemos cada personagem lidando com seus segredos e angústias, mas como não sou crítica de cinema, e sim, psicóloga, o que me chamou a atenção foi a atitude extremamente irresponsável de Jean enquanto psicóloga.

Jean rasga o código de ética do psicólogo, joga no lixo e toca fogo. Fica claro que Jean tem inúmeros problemas pessoais e isso reflete na sua prática clínica. Fica logo claro que Jean também deveria fazer psicoterapia. Por que? Vamos lá:

- Jean tem uma postura extremamente diretiva em relação aos seus pacientes, a ponto de obrigá-los a realizar determinadas ações, tudo com um jeito sutil de manipulação dos mesmos. Jean não sugere, ela manda. Não é o paciente que decide, é ela. Não há neutralidade em nenhum momento.

- Ela se envolve de forma clandestina com pessoas que fazem parte da vida daqueles que vão ao seu consultório serem atendidos por ela, especialmente aquelas pessoas que são alvos da obsessão de seus pacientes. Para isso, Jean cria uma segunda identidade/personalidade chamada Diane Hart, jornalista, que se aproxima dessas pessoas e continua a manipular a vida de seus pacientes fazendo amizades e até tendo relacionamentos amorosos. Assim como uma cigana, Jean passeia pela vida de seus pacientes e vira parte da vida deles, sem que eles saibam.

- Jean manipula o prontuário dos seus pacientes, escreve o que convém e queima o que acha que pode atrapalhar sua atuação enquanto psicóloga. Nas supervisões mente sobre a evolução dos pacientes, de novo fala o que convém, o que o supervisor quer ouvir.

Apesar de Jean fazer tudo o que um psicólogo não deve fazer, o seriado a coloca como um ser humano cheio de problemas, angústias e dificuldades, afinal ela tem vários segredos no seu passado, é mãe e está em um casamento que não vai muito bem. Sim, psicólogos, assim como todos os seres humanos, tem problemas, medos, ansiedades e é por isso que também precisam se cuidar, fazer psicoterapia, supervisões, etc. Coisas que Jean não faz e, em vez disso, se aprofunda cada vez mais na manipulação/obsessão da vida de seus pacientes.

Mau caráter? Transtorno mental? Ainda não sabemos, vem aí uma segunda temporada que promete explicar mais sobre a vida dessa psicóloga, mas, sem dúvida uma falta ética sem tamanho, passível de consequências graves se denunciada. Enfim, vale a pena assistir o seriado, pois este pode despertar diversas questões para serem discutidas sobre a ética do psicólogo e sua atuação profissional.


Texto por:
Luiza Braga (CRP 11/04767)
Psicóloga. Possui especialização em Psicologia da Saúde pela PUC/SP e Mestrado em Psicologia Clínica pela PUC/SP. É psicóloga clínica há 9 anos com experiência no atendimento de crianças e adultos, na área da psicossomática, trauma e luto. Sócia diretora do Veredas Psicológicas – Caminhos de Crescimento. Coordenadora de grupos de estudos. Atualmente faz formação em Experiência Somática e Traumas na Associação Brasileira de Traumas. Membro da ABT - Associação Brasileira de Traumas.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Por que é preciso ter cuidado ao assistir Os 13 Porquês?




Quando li o livro, pela primeira vez estava viajando. Tinha decidido passar um mês fora e li por pura diversão. Agora que tive a chance de assistir ao seriado, fiquei com medo de como as pessoas, especialmente as que estão fragilizadas, vão entendê-lo. A primeira ideia é super bem vinda: vamos falar sobre suicídio! Algo extremamente necessário atualmente. Mas, à medida que fui assistindo à série, minha preocupação foi aumentando.

Aí vem os Spoilers, muitos spoilers! Se você não assistiu, não leia o que escrevi.


Primeiro vem a questão das fitas. Cada fita é um motivo pelo qual Hannah decidiu se matar e está relacionada a diferentes pessoas. Entendi que as fitas foram gravadas como uma forma de se vingar contra as pessoas que a tinham feito mal. A ideia é: vou me matar, mas vou levar todos comigo.

Ai vem o questionamento: até onde somos responsáveis pelo suicídio de alguém? Essa questão de encontrar culpados me preocupa, até porque vejo essa questão quase todos os dias no consultório, especialmente por quem está passando por situação parecida. 

Não à toa que um dos personagens também tenta suicídio e outro tem um baú cheio de armas de grande porte e, logo depois, começa a ver fotos de alunos como se fossem possíveis alvos para uma chacina.

Não podemos negar que o seriado levanta questões importantes sobre bullying, assédio moral e sexual, machismo, relação da escola com os alunos e dos pais com os filhos. Mostra como estas relações estão cada vez mais distantes e como cada vez mais aumenta o desrespeito entre as pessoas. 




Também ouvi várias pessoas falando sobre o aumento de ligações para o CVV. Em primeiro lugar, é claro que as ligações aumentariam: este é o efeito esperado de uma campanha de divulgação. Em segundo lugar, as ligações comprovam também que "Os 13 Porquês" tem um imenso potencial para disparar gatilhos. Gatilhos esses perigosos e que podem levar ao suicídio.

Ao encenar com detalhes o suicídio de Hannah, a série vai de encontro as várias as recomendações feitas pela própria Organização Mundial da Saúde (OMS) quanto à forma com que o suicídio deve ser tratado pela mídia. Aliás, duvido que eles tenham lido algo sobre como a OMS recomenda tratar questões relacionadas ao suicídio.

Quem está em depressão grave, pode confirmar na série que a única saída é mesmo o suicídio. Hannah em nenhum momento procura ajuda de verdade. De certa forma ela quer que as pessoas cheguem até ela para salvá-la, o que na maioria das vezes é impossível, pois não sabemos o que se passa dentro da cabeça do outro. Ela tenta falar com colegas que não a aceitam ou que já fizeram mal a ela, como conselheiro da escola que não tem formação profissional e a conversa com seus pais é extremamente superficial. O final é extremamente simbólico quando ela fala: "Eu não me importo mais, e vocês não se importaram o suficiente". Novamente, a questão da culpa.

Ficaria muito mais tranquila se o seriado mostrasse que há, sim, saídas ao invés do suicídio. Sim, há angústias, maldades, mas que podem ser superadas. Locais onde a personagem poderia procurar ajuda de psicólogos, psiquiatras, grupos de apoio, igreja, etc., ao invés de mostrar o suicídio de Hannah de forma bem gráfica. 

No final, para mim, a intenção do seriado não vingou. Em vez de dar esperança às pessoas que estão com a vida por um fio, ele mostra que o melhor a fazer é arrumar culpados e depois se matar. A ideação suicida já é, por si só nociva. Reforçá-las com narrativas irresponsáveis é algo não só desaconselhável, mas também perigoso.

Resumindo: se você está bem psicologicamente, assista a série. Mas se você está mal, com depressão grave e ideação suicida, não assista e procure ajuda profissional.


Telefone CVV: 141



Texto por:

Luiza Braga (CRP 11/04767)
Psicóloga. Possui especialização em Psicologia da Saúde pela PUC/SP e Mestrado em Psicologia Clínica pela PUC/SP. É psicóloga clínica há 9 anos com experiência no atendimento de crianças e adultos, na área da psicossomática, trauma e luto. Sócia diretora do Veredas Psicológicas – Caminhos de Crescimento. Coordenadora de grupos de estudos. Atualmente faz formação em Experiência Somática e Traumas na Associação Brasileira de Traumas. Membro da ABT - Associação Brasileira de Traumas.




















sábado, 7 de setembro de 2013

Latitudes

Dando a volta ao mundo e revolucionando as novas mídias, o casal de protagonistas Daniel Oliveira e Alice Braga viajam por 8 países. Latitudes” mostra como o meio pode influenciar o ser humano – e, principalmente, a relação entre eles e fala sobre os encontros e desencontros da vida.
Para o primeiro capítulo, o cenário escolhido foi Paris. No enredo história, Alice é Olívia, uma editora de moda que viaja a trabalho pelo mundo. Daniel é vive o fotógrafo José. Os dois se conhecem em Paris e se passam a se encontrar na Inglaterra, na Turquia e em muitos outros pontos.
Já para a TV – que terá a estreia no dia 2 de setembro – o público poderá apreciar quase 22 minutos por episódio.  Ao todo, serão oito episódios na web e mais oito na TV, além de um longa – com lançamento ainda indefinido.
Confira abaixo as duas primeiras partes: